terça-feira, 15 de julho de 2014

A Pedagogia do Autoconhecimento



A Paz Interna É Uma Questão de Equilíbrio

Robert Crosbie

Do ponto de vista intelectual, a verdade explica; de um ponto de vista mais elevado, cada um contém a verdade dentro de si mesmo, e de fato é a Verdade. O ponto de vista intelectual é microscópico; o outro é a própria visão. “A grande dificuldade a ser vencida é o registro do conhecimento do Eu Superior no plano físico.” Isso não pode ser feito pelo intelecto, embora o intelecto possa colocar a casa em ordem. Patañjali [1] diz quais são os “obstáculos”; Manas [2] tem que se ver livre deles para que “o caminho do Senhor” que traz a Verdade e o Conhecimento possa ficar desimpedido. Ele está esperando, observando, trabalhando. “Veja, eu estou à porta e bato.” Nada mantém o conhecimento longe de nós, exceto o modo como opera a nossa mente inferior. Não podemos reclamar de coisa alguma, se não tornamos a mente adequada; mas a Teosofia, uma vez aplicada, nos leva à Verdade que é nós mesmos. O serviço altruísta é o grande clarificador.

Você fala do equilíbrio de forças. Em que relação? Talvez você se refira ao “contínuo ajustamento das relações internas às relações externas”, que é a base do renascimento; as duas coisas devem ser subjugadas antes que a liberdade possa ser obtida. Em tal caso, essa é Kundalini – o poder ou força que se movimenta em um caminho em espiral; é o princípio vital Universal, que se manifesta em todas as partes da natureza. Essa força inclui as duas grandes forças da atração e da repulsão; a eletricidade e o magnetismo são apenas manifestações dela. Hermes diz: “os gênios [3] têm, então, o controle das coisas mundanas, e os nossos corpos servem a eles como seus instrumentos . . . . mas a parte razoável da alma [4] não está sujeita aos gênios ; ela está destinada à recepção do Deus que a ilumina com um raio de sol, porque nem os gênios nem os deuses têm qualquer poder na presença de um simples raio de Deus. Mas todos os outros homens, como Alma e como corpo, são dirigidos por gênios, a quem eles se apegam e cujas operações eles influenciam.” Se as forças estão equilibradas, deve haver algo em torno do qual o equilíbrio é obtido; e nada que possa ser movido pelas forças poderia servir. Há apenas um fator impossível de mover – o Eu Superior.

Os equilíbrios transitórios podem ser obtidos mas não podem ser mantidos. Os altos e baixos a que todos estão sujeitos; às vezes psíquicos [5], às vezes mentais, e às vezes fisiológicos; ocasionalmente, todos os três ao mesmo tempo. Esses devem ser necessariamente os vários ajustes, ou “equilíbrios de forças” que estão em um constante processo de variação. Há, é claro “devachans” nos intervalos. [6] O mesmo e velho processo.

Não me surpreende que você descubra “algo” nas salas teosóficas – e algo em algumas ocasiões mais forte que em outras. A ajuda vem frequentemente quando é menos esperada, e é provável que venha a aquele lugar onde o trabalho realizado merece ajuda. Como as salas são destinadas exclusivamente para a Teosofia, haveria menos obstáculo lá que em outros lugares, para um tal auxílio.

Você está certo: o indivíduo deve crescer até chegar a aquele estado em que ele não busca nada para si mesmo, mas encara tudo o que acontece como a coisa mais desejada. Não há espaço para desejos pessoais nisso.

Em relação à pouca percepção que a mente tem das coisas: o que nós queremos não pode ser obtido através de ansiedade, dúvida, medo, impaciência, expectativas de que já é tempo de que algo venha até nós, e assim por diante. Esse último fator é a busca por recompensa. Decida-se a continuar como você está durante cem vidas, se necessário, e continue. Os obstáculos devem ser vencidos, se queremos que aquilo que é obstaculizado ocorra. Todo o outro estudo é bom, necessário e preparatório. Unidade-Estudo-e-Trabalho são a trindade neste plano. Universalidade, Sabedoria e Serviço formam a trindade superior. Você é o Único que está abrindo caminho para a trindade superior através da trindade inferior.

Nós aprendemos através da experiência. A confiança dá coragem – ela é a coragem. Depois de algum tempo, nós percebemos que a Lei vai agir, apesar de qualquer sentimento que possamos ter. E nesse trabalho as coisas ocorrem de modo muito peculiar – que não pode ser avaliado pelo processo convencional. Pelo menos, essa tem sido a minha experiência.

A atenção que é dada ao que você fala na reunião resulta primeiramente da força intrínseca da verdade, mas grande parte vem também da convicção que alguém tem durante a apresentação, assim como da forma usada. Você possui essa tríade. O principal fator a ser minimizado é qualquer coisa que você tenha de prolixidade. É só uma questão de manter a mesma linha no sentido de produzir mais e melhor. O sentimento de que “eu estou fazendo algo” é natural. Mas é muito melhor “deixar o guerreiro em você travar a luta”. Pense no Mestre como um homem vivo em seu interior ; deixe que Ele fale através da boca e desde o coração. A força mostrada não é a força da personalidade, porque, como ocorre com uma organização, a personalidade é só uma máquina voltada para a conservação de energia e para colocar a energia em ação. Por que dar atenção a outras coisas?

O hábito geral é o de pensar primeiro em nós mesmos, e depois nos outros. Revertamos esse hábito – pensemos pouco e por último em nós, em relação a qualquer coisa que tenhamos que dizer ou fazer. Nos encontros, adotemos o ponto de vista de que estamos lá para dar o que pudermos aos que vieram, ao invés de olharmos para os presentes como se eles estivessem lá para ouvir-nos. Judge às vezes dizia: “Vocês não devem pensar que eu sei todas essas coisas; estou apenas dizendo a vocês com conhecimento de causa que elas existem, e que estou convencido de que elas são verdadeiras.” Cada um de nós deve chegar à convicção através do estudo e da aplicação do conhecimento. Não há outra maneira.

Como sempre, R. C.

Esse texto foi publicado originalmente, sem título específico, como “Carta trinta e três”, na seção “The Spirit in the Body” do livro “The Friendly Philosopher”, de Robert Crosbie, The Theosophy Company, Los Angeles, EUA, 1945, 416 pp. ; ver pp. 94-97. As notas dos tradutores são marcadas com “NT”.

NOTAS:

[1] “Aforismos de Ioga”, de Patañjali, na versão de William Q. Judge. (NT)
[2] Manas (sânscrito) - a mente. (NT)
[3] O termo “gênios”, aqui, significa genericamente “forças sutis”, energias invisíveis aos olhos. (NT)
[4] A parte razoável da Alma, isto é, a Razão, é o Eu Superior, a Alma Imortal. (NT)
[5] A palavra “psíquico” neste contexto se refere à natureza oculta do ser humano, à sua constituição sutil, e não ao campo de estudo da psicologia moderna convencional. (NT)
[6] Devachans - estados de bem-aventurança. (NT)


Fonte:







LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...