domingo, 9 de março de 2014

Mitologia Galaica e Lusitana


A Galécia (em latim Gallaecia ou Callaecia) foi uma província romana na extremidade norte-ocidental da Península Ibérica, que corresponde ao território onde se encontra a cultura castreja, na atual Galiza e norte de Portugal.

Os galaicos (callaeci ou gallaeci, em latim, kallaikoi em grego), também chamados de calaicos, eram um conjunto de tribos celtas que habitavam o noroeste da península Ibérica correspondendo, hoje em dia, ao espaço geográfico que abrange o norte de Portugal, a Galiza, as Astúrias e parte de Leão.

Travaram grandes batalhas com os romanos durante anos e foram subjugados política e militarmente por estes, comandados por Décimo Júnio Bruto, que pela proeza de os derrotar, tomou o cognome de "o Galaico".

A designação da tribo vem da batalha entre galaicos e romanos que ocorreu na cidade de Cale (que alguns historiadores situam no que hoje é Gaia e outros no que hoje é Porto) e celebra a forte resistência dada por este povo aos romanos, que estendem a designação às restantes tribos do noroeste peninsular.

Os deuses lusitanos estiveram em síntese quer com os celtas quer com os romanos. O povo lusitano adaptou os cultos de ambas as civilizações, influenciando, deste modo, as crenças locais. Algumas divindades lusitanas foram assimiladas pelos romanos.

Ares Lusitani - Ares Lusitani era o deus dos cavalos na mitologia lusitana.

Atégina - era a deusa do renascimento (Primavera), fertilidade, natureza e cura na mitologia lusitana. Viam-na como a deusa lusitana da Lua. O nome Ataegina é originário do celta Ate + Gena, que significaria "renascimento".

O animal consagrado a Atégina era o bode ou a cabra. Ela tinha um culto de devotio, em que alguém invocava a deusa para curar alguém, ou até mesmo para lançar uma maldição, que poderia ir de pequenas pragas à morte.

Atégina era venerada na Lusitânia e na Bética, existem santuários dedicados a esta deusa em Elvas (Portugal), e Mérida e Cáceres, na Extremadura espanhola, além de outros locais, especialmente perto do Rio Guadiana. Ela era também uma das principais deusas veneradas em locais como Myrtilis (Mértola dos dias de hoje), Pax Julia (Beja), ambas cidades em Portugal, e especialmente venerada na cidade de Turobriga, cuja localização é desconhecida. A região era conhecida como a Baeturia celta.

Bandua - Deus supremo da cultura castreja (dos Galaicos, portanto), mas também dos Lusitanos, considerado o Deus da guerra e vinculado a tradição céltica centro europeia. Geralmente aparece com diferentes epítetos - Bandua Aposolego, Bandua Cadogus, Bandua Aetobrigus, Bandua Roudeacus, Bandua Isibraiegus - que fazem referência ao seu carácter militar. Nas fontes romanas aparece associado com Marte. Apareceram menções em gravuras de numerosos lugares do noroeste peninsular, com menor frequência no resto da península. Uma ara dedicada a este Deus atopou-se no castro de San Cibrao de Las, no concelho de San Amaro, ara especialmente importante já que aportou o nome do castro, sendo, deste jeito, um dos poucos castros dos que conhecemos o seu nome, Lansbricae.

Cariocecus - Cariocecus ou Mars Cariocecus era o deus da guerra na mitologia lusitana. Era o equivalente lusitano para os deus romano Marte e para o deus grego Ares.

Os lusitanos praticavam sacrifícios humanos, e quando um sacerdote feria um prisioneiro no estômago, fazia previsões apenas pela maneira como a vítima caia e pela aparência dos intestinos. Os sacrifícios não estavam limitados a prisioneiros, mas também incluíam animais, em especial cavalos e bodes. É o que diz Estrabão: "ofereciam um bode, os prisioneiros e cavalos". Os lusitanos cortavam a mão direita dos prisioneiros e as consagravam a Cariocecus.

Duberdicus - era o deus das fontes e da água na mitologia lusitana.

Endovélico - Endovélico é uma divindade da Idade do Ferro venerada na Lusitânia pré-romana. Deus da medicina e da segurança, de caráter simultaneamente solar e ctónico, depois da invasão romana, seu culto espalhou-se pela maioria do Império Romano, subsistindo por meio da sua identificação com Esculápio ou Asclépio, mas manteve-se sempre mais popular na Península Ibérica, mais propriamente nas províncias romanas da Lusitânia e Bética.

Endovélico tem um templo em São Miguel da Mota, no Alentejo, em Portugal, e existem numerosas inscrições e ex-votos dedicados a ele no Museu Etnológico de Lisboa. O culto de Endovélico sobreviveu até ao século V, até que o cristianismo se espalhou na região.

Nábia - era a deusa dos rios e da água na mitologia galaica e lusitana. O rio Navia, na Galiza, e o rio Neiva, perto de Braga (antiga capital da Galécia), foram batizados em sua homenagem. Nabia era especialmente adorada entre os Brácaros, tal como é comprovado pelas inscrições epigráficas, em língua céltica, da Fonte do Ídolo, em Braga (Bracara Augusta) e latina, de Marecos (Penafiel). Interpretações recentes permitem redefinir a perspectiva tradicional de uma mera divindade fluvial.

Nantosvelta - era uma deusa celta da natureza e da caça, assimilada pelos romanos como sendo Diana. Pelo menos um baixo-relevo dela foi encontrado na Alemanha. Nantosvelta era também a deusa da Natureza entre os lusitanos.

Pena Molexa - é um dos monumentos naturais mais singulares do Concelho de Narom e fica na freguesia de Santa Maria a Maior do Val, perto do assentamento castrejo de Vilasuso.

A Lenda da Moura - Conta a lenda que um poderoso feitiço converteu uma fada muito bela numa rocha. Na noite do solstício de Verão desfaz-se o encantamento e, por uns segundos, a rocha transforma-se de novo numa mulher, que sai e mostra um tesouro. A donzela tem de procurar um pretendente que a liberte de passar outro ano inteiro fechada na rocha. Mas como deve pôr à prova o jovem para se assegurar do seu amor, a fada dá a escolher entre ela e o tesouro. O destino manda e o pretendente, ano após ano, escolhe o cofre. Nesse momento, o ouro esvai-se e ambos fundem-se na rocha. Ela terá de ficar mais um ano à espera de repetir a história.

Lenda do rei e dos guerreiros - Esta lenda conta que, ao pé da Pena Molexa, há outras rochas que são um rei e os seus guerreiros, convertidos em penedos, também por um feitiço. Na noite do solstício de Verão, a noite do São João, transformam-se de novo em humanos, para lembrar as pessoas que sempre ficarão lá para guardar a terra. Essa noite, o rei e os seus homens e mulheres percorrem e vigiam os montes, visitam e protegem as casas, além de cuidar dos idosos, já que são eles que guardam as nossas antigas tradições. Ao finalizar a noite solsticial, convertem-se mais uma vez em pedra, de onde nos espreitam, ficando para todo o sempre connosco, a proteger a Terra de Trasancos.

A noite do São João - é uma data mágica. Há imensos mitos, lendas, romances e tradições relacionados com ela, perante a chegada do solstício de Verão. É considerada a grande noite do amor, os oráculos, a adivinhação e a fertilidade. Para as culturas pre-cristãs, a noite do São João era o momento de festejar que o dia, quer dizer, a vida, que vencia a noite, o eterno alter ego da morte. É verdade que, naquela altura, só se celebrava o solstício de Verão, o apogeu do Deus Sol. Hoje em dia já não fica quase nada da presença espiritual, mas sim de magia e de superstições. Desde tempos pré-romanos que o lume, em forma de fogueiras, tem um papel muito importante nesta celebração. Com esta ação, tencionava-se “dar mais força ao sol” que, a partir desses dias, ia fazendo-se mais “fraco”.

Os Mouros - No folclore galego, o mouro constitui o protótipo de ser sobrenatural, uma autêntica raça mítica que reflete valores e caracteres duma sociedade sobretudo rural.

Os mouros, no imaginário galego, moram em lugares onde os humanos não podem morar: abaixo da água ou da terra. Os castros, os dólmens, as covas e as profundezas das lagoas são espaços mágicos, mas principalmente são o lar dos seres sobrenaturais galegos, que aparecem como os seus construtores e os seus moradores.

A Deusa Mãe continua a viver hoje na etnografia galega como A Moura. É um fóssil vivente que, na manhã do São João, ao alvorecer, nos faz o presente da sua presença, quando vem à procura dum generoso esposo merecedor de compartilhar com Ela o seu amor e os seus tesouros no Além.

Este é o caso da Pena Molexa no Val, um enorme megálito, de muitas toneladas de peso, acavalado de propósito e colocado em frente do lugar por onde sai a lua nova no ano chamado metónico.

Tongoenabiagus - era o deus da Fonte do Juramento para o povo castrejo da Galécia, atual norte de Portugal e Galiza. A Fonte do Ídolo, em Braga, é uma fonte romana dedicada a Tongoenabiagus. Possivelmente um deus duplo, Tongoe e Nabia, é um deus das águas. Uma proposta de interpretação de Tongoenabiagus é “o deus do rio pelo qual se jura”.

Turiaco - (em latim Turiacus) era o deus do poder das mitologias galaica e lusitana. Parece ter sido especialmente venerado pelos gróvios, povo galaico que habitava o vale do rio Minho. Seu nome seria proveniente dos termos locais tur ou tor, que significam "senhor" ou "rei", e teria sido relacionado, por estudiosos, a uma inscrição irlandesa em gaélico que alude a Thor í rí no tighearna.

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Wikipédia

Fonte:







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