domingo, 5 de janeiro de 2014

O amor à vida



O oposto da orientação necrófila é a orientação biófila. A sua essência é o amor à vida, em contraste com o amor pela morte.

Como a necrofilia, a biofilia não é constituída por um único traço, mas representa uma orientação total, todo um modo de vida. Ela se manifesta nos processos corporais da pessoa, em suas emoções, em seus pensamentos e em seus gestos.

A orientação biófila se expressa em todo o ser humano. A forma mais elementar desta orientação se expressa na tendência que todos os organismos vivos têm de viver. Ao contrário da ideia de Freud em relação a um “instinto de morte”, eu concordo com a conclusão - a que chegaram muitos biólogos e filósofos - de que viver e preservar a sua existência é uma qualidade inerente a toda substância viva. Nas palavras de Spinoza:

“Toda coisa, na medida em que existe em si, esforça-se por perseverar no seu ser.” [1] E ele disse que este esforço era a própria essência da coisa em questão. [2]

Observamos esta tendência de viver em todas as substâncias vivas que nos rodeiam; na grama que irrompe entre as pedras para obter luz e viver; no animal que luta até o final para escapar da morte; e no homem, que faz quase qualquer coisa para preservar sua vida.

A tendência a preservar a vida e a lutar contra a morte é a forma mais elementar da orientação biófila, e é comum a toda substância viva. Enquanto é uma tendência de preservar a vida e de lutar contra a morte, a biofilia representa só um aspecto do impulso em direção à vida. O outro aspecto é mais positivo: a substância viva tem a tendência de se integrar e de se unir. Ela tende a se fundir com entidades diferentes e opostas, e a crescer de uma maneira estrutural. A unificação e o crescimento integrado são características de todos os processos vitais; não só no que se refere às células, mas também no que diz respeito ao sentimento, e ao pensamento.

A expressão mais elementar desta tendência é a fusão entre células e organismos, desde a fusão não-sexual de células até a união sexual entre os animais e entre os seres humanos. Nestes últimos, a união sexual é baseada na atração entre os pólos masculino e feminino.

A polaridade macho-fêmea constitui o centro da necessidade de fusão, da qual depende a vida da espécie humana. Parece que por esta mesma razão a natureza deu aos seres humanos o mais intenso prazer na fusão dos dois pólos. Biologicamente, o resultado desta fusão é, normalmente, a criação de um novo ser.

(...) O desenvolvimento completo da biofilia é encontrado na orientação produtiva. [3] O indivíduo que ama completamente a vida é atraído pelo processo da vida e do crescimento em todas as esferas. Ele prefere construir, ao invés de reter. Ele é capaz de surpreender-se, e prefere ver algo novo, ao invés da segurança de confirmar o que é velho. Ele ama a aventura de viver, mais do que ama a certeza. Seu enfoque da vida é funcional, ao invés de mecânico. Ele vê o todo, e não apenas as partes. Percebe as estruturas, mais do que a soma aritmética. Ele quer moldar e influenciar através do amor, da razão, e do seu exemplo, e não pela força, pela separação, ou pela maneira burocrática de administrar pessoas como se fossem coisas. Ele aprecia a vida em todas as suas manifestações, ao invés de ter, apenas, ansiedade.

A ética biófila tem os seus próprios princípios sobre bem e mal. Bom é tudo o que serve à vida. Mau é o que serve à morte. Bom é o sentimento de reverência pela vida [4], e por tudo o que aumenta a vida, o crescimento, o desenvolvimento. Mau é tudo o que enrijece a vida, que a torna estreita, ou que a corta em pedaços. A alegria é virtuosa. A tristeza é um pecado.

(...)

A consciência biófila é motivada por sua atração pela vida e pela felicidade. O esforço moral consiste em fortalecer o amor à vida em si mesmo. Por esta razão, o biófilo não se demora com remorsos e culpa, que são, afinal, apenas repugnância por si mesmo e tristeza. Ele se volta rapidamente para a vida, e tenta fazer o bem.

A “Ética” de Spinoza [5] é um exemplo notável de moralidade biófila. “O prazer”, diz ele, “em si mesmo, não é mau, mas bom; ao contrário, a dor, em si mesma, é má.” [6]

E, seguindo na mesma linha de pensamento:

“A última coisa em que pensa um homem livre é na morte; e a sua sabedoria é uma meditação, não sobre a morte, mas sobre a vida”. [7]

O amor à vida está na base das várias versões da filosofia humanística. Em suas formas conceituais bastante diversas, estas filosofias têm afinidade com a filosofia de Spinoza.

Elas expressam o princípio de que o ser humano saudável ama a vida; de que a tristeza é um pecado e o contentamento uma virtude; de que a meta do ser humano é estar em unidade com tudo o que vive, e separar-se de tudo o que é morto e mecânico.


Erich Fromm

NOTAS:

[1] “Ética”, III, proposição VI. (Nota de Erich Fromm)
[2] “Ética”, III, proposição VII. (Nota de Erich Fromm)
[3] Veja a discussão da orientação produtiva na obra “Man for Himself”, de E. Fromm (New York: Holt, Rinehartand Winston, 1947). (Nota de Erich Fromm)
[4] Esta é uma das principais teses de Albert Schweitzer, um dos grandes representantes do amor à vida - tanto por seus escritos como por sua pessoa. (Nota de Erich Fromm)
[5] Cabe registrar que Spinoza é um filósofo considerado muito próximo da filosofia teosófica original. (Nota do Tradutor)
[6] “Ética”, IV, proposição XLI. (Nota de Erich Fromm)
[7] “Ética”, IV, proposição LXVII. (Nota de Erich Fromm)

[Do texto “Carl Jung, a Ética e a Psicologia”, de Erich Fromm, disponível em www.FilosofiaEsoterica.com]


fonte:







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