segunda-feira, 18 de março de 2013

As Revoluções de Percepção


Os Momentos de Iluminação Súbita e o “Ponto Ômega”

Carlos Cardoso Aveline
Em um ensaio intitulado “O que são revoluções científicas?”, o físico e filósofo Thomas Kuhn discute a relação que há, na busca do conhecimento, entre o caminho gradual e a ruptura súbita com aquilo que parece estar estabelecido.

Kuhn notabilizou-se por analisar o contraste entre as duas modalidades. O desenvolvimento científico “normal” progride através do acúmulo linear de conhecimento. O progresso científico “revolucionário” ocorre de modo não-acumulativo, e abandona ou altera premissas da fase anterior. [1]

Durante as fases de acumulação gradual, preparam-se lentamente as bases das próximas rupturas com o passado. Cada vez que ocorre uma “ruptura revolucionária” no progresso científico, grandes blocos de conhecimento, que até ali pareciam centrais e indispensáveis, caem para um segundo plano ou são totalmente abandonados.

O conceito de “revolução científica” de Kuhn não fica necessariamente limitado à ciência exata. Ele tem uma componente multidisciplinar e universal. Toda forma de vida, inclusive a vida de um país ou civilização, é sempre uma jornada em busca de conhecimento; e, como tal, combina os dois “modos de conhecer” detectados por Kuhn. De um lado, a percepção gradual. De outro, a “descoberta súbita”.

A ideia de que há momentos em que as “revoluções perceptivas” são inevitáveis não só constitui algo útil em geral, mas talvez seja indispensável para que possamos compreender o atual momento humano. A expressão “revolução científica” tem também uma correspondência com o conceito zen-budista de “iluminação súbita”, e com a ideia de “ponto ômega”, utilizada por Teilhard de Chardin. Talvez a humanidade esteja atravessando um destes momentos. A mudança que estamos todos vivendo – individual e coletivamente – é tão vasta, abrangente e rápida, que não somos capazes de perceber com clareza todas as suas dimensões. A visão do movimento das folhas das árvores tem sido tão fascinante que poucos indivíduos vêem a radical mudança do bosque inteiro a seu redor.

Apesar da precariedade da percepção humanamente possível, muitos compreendem que nossa sociedade se aproxima de um momento de “ruptura cognitiva”; ou talvez já tenha ingressado nele. O velho modo estabelecido de ver as coisas se desfaz. Nossa antiga noção de tempo e de espaço se desmancha. Milhares de pequenos fatores alteram a substância das lentes com que olhamos aquilo que, para nós, é a “realidade”.

Por uma série de motivos, no entanto, nem sempre é sábia a nossa atitude diante da mudança. Como podemos perceber o que deve ser renovado, e o que deve ser preservado? Em alguns casos, em áreas em que a mudança deveria ser bem recebida, ficamos excessivamente apegados à rotina. Em outros casos, quando seria melhor uma atitude mais modesta e conservadora, busca-se mudanças em áreas superficiais da vida. Mas o problema tem solução. Como sempre, a calma, o discernimento e uma visão filosófica de longo prazo nos ajudam nas questões fundamentais da vida.

A rocha firme não se abala pelo movimento das marés. Na renúncia à agitação inútil, há um velho ditado popular que deve ser adaptado para os dias atuais. Na verdade, mais vale um livro de teosofia na mão do que dois celulares tocando. Uma porção razoável de paz no coração têm valor maior que os mais brilhantes e complexos i-phones. Além de mandar uma nave tripulada a Marte e redescobrir os milagres da ética na política e da preservação ambiental, uma das grandes aventuras científicas que esperam por nós consiste em conhecer a nós mesmos e ouvir a voz sem palavras das nossas almas imortais.

NOTA:

[1] “O que são revoluções científicas?”, texto publicado no livro O Caminho desde ‘A Estrutura’, de Thomas S. Kuhn, Ed. UNESP, 2003, SP, 403 pp., ver pp. 23-45.


O texto foi publicado inicialmente de modo anônimo no boletim mensal “O Teosofista”, de outubro de 2008.


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