quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Lendas Xamânicas - A Medicina dos Castores



Há muito tempo atrás dois irmãos moravam juntos. O mais velho, cujo nome era Nopatsis, estava casado com uma mulher terrível e que odiava seu irmão mais novo, Akaiyan. Todos os dias a mulher aborrecia seu marido para que este se livrasse do irmão, mas ele recusava-se a fazê-lo pois tinham passado, juntos, muitos anos na miséria – de fato, desde que os pais os tinham deixado como órfãos indefesos – em que eram tudo um para o outro. Assim, a mulher de Nopatsis recorreu a um ardil bem conhecido das mulheres de mau coração. Um dia, quando o seu marido voltava da caça, encontrou-a chorando, com a roupa rasgada e aparência desalinhada. Ela disse-lhe que Akaiyan a tinha molestado. Aquela mentira entrou no coração de Nopatsis tornando-o pesado de tal maneira, que ele foi criando um ódio cego pelo seu irmão, que era inocente. À medida que o tempo ia passando Nopatsis ia debatendo, consigo próprio, a melhor maneira de se ver livre de Akaiyan.

O verão havia chegado e, com ele, a época da muda das penas, quando as aves aquáticas selvagens trocam a penugem com a qual os índios preparam suas flechas. Perto da tenda de Nopatsis havia um grande lago onde estas aves se juntavam em grande número. Era a este local que os dois irmãos iam buscar as ditas penas para enfeitar os seus dardos. Construíram uma canoa de toras ligadas com couro de búfalo, para que, assim, pudessem chegar a uma ilha no meio do lago. Uma vez embarcados, navegaram até a ilha onde passearam à beira do lago, à procura de penas que servissem aos seus objetivos. A certa altura os dois irmãos separaram-se. Quando mais tarde Akaiyan, que tinha se afastado demais, olhou para o lago, viu seu irmão navegando de volta para casa. Akaiyan gritou pedindo que voltasse, mas a resposta de Nopatsis foi que ele merecia morrer ali devido à brutalidade com que havia tratado sua cunhada. Akaiyan jurou solenemente não a ter injuriado de forma alguma. No entanto, Nopatsis apenas escarneceu dele e seguiu seu caminho. Em breve desaparecia de vista e Akaiyan sentou-se no chão e chorou desesperadamente. Ele rezou com todas as suas forças aos espíritos da natureza, ao Sol e à Lua, sentindo-se melhor. A seguir, improvisou um abrigo feito de ramos e uma cama de penas confortável. Ele vivia bem dos patos e gansos que frequentavam a ilha, com cujas penas fez um manto quente para enfrentar a época de Inverno. Teve também o cuidado de preservar algumas dessas mansas aves para a sua alimentação na estação fria.

Um dia encontrou a toca de um castor e, enquanto a mirava com curiosidade, apercebeu-se da presença de um dos animaizinhos.

“O meu pai deseja que entre nesta toca”, disse o castor. Akaiyan aceitou o convite e entrou na toca onde o Grande Castor o seu recebeu. Ele era o chefe de todos os castores. Akaiyan contou ao castor a maneira cruel que tinha sido tratado e o sábio animal concordou com ele e convidou-o a passar o Inverno na sua toca, onde aprenderia muitas coisas úteis e maravilhosas. Akaiyan aceitou o convite e permaneceu todo o Inverno com eles. Mantiveram-no quente pondo as suas grossas e suaves caudas por cima do seu corpo e ensinaram-lhe os segredos da arte de curar, o uso do tabaco e várias danças, cantos e orações cerimoniais que faziam parte do grande mistério da medicina.

O Verão chegou de novo e, ao despedirem-se, O Grande Castor pediu a Akaiyan para escolher um presente. Ele escolheu o filho mais novo do Castor, de quem se tinha tornado grande amigo. Mas o pai gostava especialmente do seu filho mais novo e, a princípio, não o queria deixar ir. Finalmente, porém, o Grande Castor permitiu que Pequeno Castor partisse, aconselhando-o a fundar um grupo sagrado de castores assim que chegasse à sua aldeia natal.

Passado um certo tempo, Nopatsis voltou à ilha na sua canoa e, desejando ter a certeza de que seu irmão estava morto, começou a procurar os seus restos mortais. Mas, enquanto procurava, Akaiyan pegou Pequeno Castor e embarcou na canoa para o continente, observado pelo seu irmão. Quando Akaiyan chegou à sua aldeia, relatou a sua história ao chefe, construiu um Clã de Medicina dos Castores e começou a ensinar ao povo os mistérios da medicina, com as respectivas canções e danças. Depois, convidou os chefes das tribos de animais a contribuírem com a sua sabedoria para a Medicina dos Castores, o que muitos fizeram.

Tendo cumprido sua tarefa de instrução que o ocupou o Inverno inteiro, Akaiyan voltou à ilha com Pequeno Castor, que tinha sido de uma grande ajuda no ensinar das canções e danças medicinais. Devolveu Pequeno Castor aos seus pais e, em troca, foi-lhe dado um cachimbo sagrado e foram-lhe ensinadas as canções e as danças cerimoniais respectivas. Na ilha, ele encontrou os ossos do seu crédulo e vingativo irmão, cujo destino tinha sido aquele que havia sido planejado para o inocente Akaiyan. Todas as Primaveras, Akaiyan visitava os castores e, a cada vez que o fazia, recebia algo para juntar ao Clã de Medicina dos Castores, até esse grupo ter atingido as proporções que tem agora. Akaiyan casou e fundo uma raça de homens de medicina que tem tido a preocupação de transmitir, de geração em geração, as tradições e as cerimônias da medicina dos castores até nossos dias atuais.


Colaboração: Paula Calixto









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